sexta-feira, 4 de junho de 2010

OLIMPÍADA DE LÍNGUA PORTUGUESA

As inscrições para a participação nas Olimpíadas de Língua Portuguesa foram prorrogadas até o dia 07-06-10.
Agora é só as escolas se prepararem para fazer bonito, como a aluna Caroline de Cruzeiro do Sul. Veja o texto escrito por ela e que ganhou o prêmio no gênero Memórias.
Lá onde o vento faz a curva. O texto está escrito conforme o original.

Aluna: Caroline Souza de Freitas

Era uma manhã quente do mês de julho. Abri a janela do meu quarto, olhei as crianças que brincavam em frente a minha casa. No mesmo instante foi como se tivesse passado um filme na minha memória.
Lembrei de que no rio que cortava a cidade pessoas banhavam-se e lavavam roupas. Os barcos pequenos atracavam onde hoje se encontra a praça de táxi. Era tudo muito verde: os pastos, gramados e capoeiras. Tudo misturava-se com a cidade. Em meio ao verde refrescante lojas e edifícios aumentavam o calor deste lugar.
Naquele tempo as notícias eram a especialidade do Zezinho Caçote. Ele passava às 24 horas do dia com o rádio a pilha sintonizado na BBC de Londres, na Voz da Amérida e na Rádio Globo. E nada escapava aos ouvidos desse senhor que perambulava pelas ruas da cidade com o rádio apoiado no ombro. Além de dar as notícias do Brasil e do mundo, Zezinho se comprazia em encher o interlocutor de perguntas intrigantes: "Sabe o que é guerra fria?", "Os russos ainda têm muitas ogivas nucleares?". Mas, quando o negócio era a previsão do tempo, os moradores recorriam ao Deodato, o carregador de água, que dizia: "Amanhã vai chover". E, se alguém no dia seguinte vinha cobrar a chuva que não caira, ele não se dava por derrotado, respondia dizendo que de fato não chovera, mas com certeza o temporal havia atingido as cabeceiras dos rios.
Os meios de transporte mais utilizados eram o carro de boi, cavalos, canoas e as chatas - tipo de barco que transportavam as borrachas dos seringais para os centros de comercialização. Para se comprar carne no único mercado era uma luta, as pessoas tinham que chegar de madrugada e deixar uma cesta amarrada numa corda chamada "cobrinha" e torcer para ainda haver carne no momento de ser atendido.
Toda noite nos reuníamos e os mais velhos contavam histórias de assombrações, reis, rainhas e fantasmas.
Antigamente, havia a brincadeira do bumba-meu-boi, ocasião em que as pessoas se divertiam e as crianças morriam de medo dos caretas, que eram os homens mascarados.
Naquela época, as festas eram a especialidade do Ibianez. Foi ele o introdutor da festa do boi-bumbá e da marujada em Cruzeiro do Sul. Negro, forte, atarracado, o Ibianez alegrava as famílias batendo de porta em porta com seus versos ritmados de marujo. Festa com ele só tinha hora pra começar.
Ah, como eu tenho saudades desse tempo! Esses acontecimentos eram propícios para encontros de amigos e namorados. Ali ninguém tinha maldade no coração, só queríamos nos divertir.
Antes da chegada da televisão, em meados da década de 1970, o dia-a-dia da minha cidade era mais interessante. E se falo da televisão é porque até a chegada desses aparelhos moradores compartilhavam nas janelas, praças e calçadas suas angústias, alegrias e conhecimento com muito mais intensidade.
De repente, o telefone tocou e voltei aos dias atuais. Lembrei-me de que estou no século XXI. Vejo ônibus, carros de luxo, internet, televisão colorida, previsão de tempo na TV, queimadas, rios secando, árvores tombando, o ar sujo, o vento sem frescor, a fome na periferia.
Também vejo um pouco de amor, solidariedade, homens que se respeitam e se ajudam.
Estou hoje com 51 anos e sempre me lembrarei da minha cidadezinha, que ficou "lá onde o vento faz a curva", e contagia a todos, já que nem tudo está perdido.
(Texto escrito com base na entrevista realizada com dona Edileuza Soares, 57 anos, moradora da cidade de Cruzeiro do Sul - Acre)
Professora: ANA LIMA CORDEIRO GOMES
Escola: SÃO JOSÉ
Cidade: CRUZEIRO DO SUL – AC

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