sexta-feira, 18 de março de 2011

Encontro no CENPEC discute leitura e produção de textos.


O Grupo de Discussão de Língua Portuguesa do Cenpec organizou uma mesa de debates com o tema "Leitura e produção de textos no ensino fundamental: desafio de todos". O evento aconteceu no dia 16 de dezembro, no auditório da entidade, e serviu de fechamento para o segundo ano de atividades do grupo, que reúne representantes de todos os projetos do Cenpec na área de Língua Portuguesa.

O encontro foi aberto com apresentações das professoras Ana Luiza Marcondes Garcia, do departamento de Linguística da PUC-SP, e Maria José Martins da Nóbrega, consultora da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. A mediação foi feita pelo professor Egon de Oliveira Rangel, também do departamento de Linguística da PUC-SP.

Gênero não é estático

Em sua palestra, Ana Luiza abordou a produção de textos na escola por meio do trabalho com gêneros e os desafios que se apresentam para as atividades em sala de aula. Citando publicações da professora Elizabeth Marcuschi, da Universidade Federal de Pernambuco, e do professor Joaquim Dolz, da Universidade de Genebra, na Suíça, comparou as mudanças e os objetivos das práticas atuais para o ensino de textos: "O objetivo na escola era aprender a escrita correta, por isso a gramática normativa e a ortografia. Uma tendência que não tomava a escrita como um processo de interlocução. Nos anos de 1980 é que a redação escolar começa a ser entendida como texto, fala-se em ‘produção de texto'. Antes, todo texto tinha que ter começo, meio e fim, já que sempre era narração, descrição ou dissertação", explicou.

Ainda segundo Ana Luiza, foi apenas na segunda metade dos anos de 1990 que aparece a abordagem dos gêneros textuais. Predominava o interesse pela nomeação e classificação dos gêneros com a ideia de que eram fixos e imutáveis. "É com Bakhtin e com a escola de Genebra que nasce a importância de conceber os gêneros textuais dentro de seu contexto social e de sua condição de produção. É isso que diferencia os textos escritos ou orais: as condições de produção distintas. Gênero não é algo estático. Portanto, a proposta é preparar o aprendiz para participar de modo ativo e crítico da sociedade. Na escola, irá fazer o que faz fora", afirmou.

Ela também destacou que o trabalho com os gêneros exige que as condições de produção estejam claras: "Onde está o enunciado? Qual o objetivo pretendido? Qual o espaço de circulação? Qual é o leitor presumido? Que suporte é pressuposto? Que tom deverá ser assumido? Em que gênero escrever? Tudo isso precisa estar explicitado".

Mas a professora alerta que o ensino com gêneros não pode virar uma camisa de força ou um modismo. "Não pode ser a única concepção ou modo de trabalhar a Língua Portuguesa. Não se pode ter a ideia de que basta ensinar a escrever gêneros".



As práticas de leitura na escola: desafios

A professora Maria José Nóbrega falou da leitura na escola. Ela abriu sua exposição com uma triste constatação: "A escola ainda não conseguiu inserir os segmentos menos favorecidos da população na cultura letrada". Citando os dados do último PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), afirmou que apesar da inclusão de crianças e jovens na escola desde os anos de 1960 e 1970, nem todos os segmentos da população foram beneficiados pelas melhorias de novos processos pedagógicos implantados. "O que é difícil e perverso é que todos os avanços no âmbito da escola beneficiaram os mesmos grupos", disse Maria José.

Para a produção e compreensão de textos não bastam os conhecimentos lingüísticos, "mas os extralingüísticos", afirmou. Ela se referia aos conhecimentos que estudantes têm do mundo, que trazem do meio familiar, de seu histórico de vida, de sua formação cultural, dentre outros. Também falou de uma característica importante que diferencia a leitura das novas gerações: "Os alunos atuais tem uma intimidade com meios virtuais, o que vai de ‘link em link, estabelecendo, ele mesmo, a coerência de sua leitura. Diferentemente de antes, quando a coerência era estabelecida apenas pelo escritor do texto que se está lendo".

Com as novas propostas curriculares, organizadas em torno das práticas de linguagem, foram introduzidos na escola novos gêneros, além dos literários. Consultora da secretaria municipal de Educação de São Paulo, ela apresentou os gêneros selecionados, pelas novas propostas curriculares, para o ensino fundamental do município. Sempre contextualizado pela esfera de circulação, o trabalho prevê atividades com bilhetes de recado, criação de receitas, cartas, leitura de regras de jogos, passando por contos, poemas e fábulas até chegar a notícias, entrevistas, canções, rap, história em quadrinhos, cordel, teatro entre outros. O trabalho ainda inclui textos de requerimentos, currículos e uma entrevista profissional.

Quando falou do tipo de texto literário que deve circular pela escola, defendeu a necessidade de utilizar tanto textos clássicos quanto contemporâneos. Maria José também ponderou o cuidado para não se tomar o ensino de leitura apenas com fins utilitários.

Escola é parte da vida, da sociedade e da cultura

Depois da participação do público, o encerramento do encontro foi feito pelo professor Egon de Oliveira Rangel, que falou da "importância em articular as questões cotidianas da escola com o pensamento de ponta da academia".

Para Egon, esse tipo de discussão reabre espaço para pensar a escola como parte da vida, da sociedade e da cultura. "É bom voltar a entender porque razão a escola faz parte da vida e da cultura. É importante para o nosso trabalho. Por isso é preciso ponderar o peso das camadas populares e das culturas populares para rearticular o currículo com a vida em sociedade".

O professor também criticou o que chamou de "privilégio absoluto" das avaliações sistêmicas. "Elas exorbitaram, antes eram para trazer informações para os gestores e hoje pautam os gestores", afirmou.
Texto retirado da Comunidade Virtual Escrevendo o Futuro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário